Como toda a gente que já aterrou
em Luanda tão bem sabe, a primeira coisa que se nota ao sair da aeronave é o calor. Calor
este, que é demasiado húmido e bruto para sensibilidades europeias qual a minha, que ainda
para mais nunca me vi a sul da Ilha de Tavira.
[Curiosamente, ‘húmido e bruto’,
descreve também na perfeição o estado a que sucumbe o cidadão, quando
exposto tempo suficiente a um calor desta natureza.]
Depois da abertura das portas, os
impactos que eventualmente se sigam ao bafo atmosférico, irão
variar largamente consoante a sorte e experiência do passageiro. Este que vos
escreve não se pode queixar muito da sorte - especialmente em comparação com
os épicos ‘azares’ de outros voos para Angola que me haviam contado, em jeito de história de terror, nos dias antes de partir. Já em termos de
experiência nestas andanças, estou tão
rodado como um triângulo. Bastará informar que, apesar de já ter viajado a minha conta,
sempre o fiz dentro das fronteiras do espaço Schengen. E que, portanto, até saber
que vinha para os ultra-mares nem passaporte este menino tinha.
Apeado do avião, apanhado o mini-BUS e chegado ao terminal, tive então o meu desvirginamento de controle de passaporte. Já vinha avisado que a fila de espera nunca é inferior a uma hora. Mas ao fim de uns três quartos-de-hora ali encarneirado num ziguezague de fitinha e pilaretes, ocorreu-me balir. Contive-me, por receio que a provável falta de sentido de humor das pessoas que trabalham em controlo de vistos se confirmasse, e culminasse em represálias de cariz deportante.
Apeado do avião, apanhado o mini-BUS e chegado ao terminal, tive então o meu desvirginamento de controle de passaporte. Já vinha avisado que a fila de espera nunca é inferior a uma hora. Mas ao fim de uns três quartos-de-hora ali encarneirado num ziguezague de fitinha e pilaretes, ocorreu-me balir. Contive-me, por receio que a provável falta de sentido de humor das pessoas que trabalham em controlo de vistos se confirmasse, e culminasse em represálias de cariz deportante.
Chegada a minha vez, o encontro
imediato com o controlador de vistos foi nem bem nem mal-passado. Embora
tenha ficado 5-7 minutos a falar com o omnipotente senhor, consegui passar sem
ter de o convidar para um 'cafezinho' – entenda-se que aqui o 'convite' não
envolve nem a minha presença, nem qualquer consumo de cafeína. ‘Cafezinho’ é
naturalmente um eufemismo para suborno ('gasosa') em forma de nota de 10 ou
20$ dentro do passaporte. Ainda assim, temi pelos meus Andrew Jacksons, quando,
ao responder, “Engenheiro” à questão, “O que é que você faz”, o controlador exclamou:
-Xiiiii... Já vem tarde, pá.
-Desculpe?
- Já vem tarde. Temos muitos.
Temos muitos engenheiros, já. - Eu não pude deixar de me rir, surpreso. E
repetiu o senhor, sem se rir:
– Temos muitos, já. (longa pausa)
E agora? Hm? Como é que fazemos agora?...
Arregalei os olhos, procurando
transmitir desconhecimento e jovem inocência. Paralelamente, usava de
um eloquentíssimo silêncio.
-O que vem fazer aqui?
Dei-lhe a carta de chamada de uma
empresa angolana e papagueei a frase que me tinham ensinado em Portugal - e que já tinha ouvido entretanto, vinda do guiché
da direita.
- Prospecção comercial.
Ele não escondeu o enfado ao ver
a carta. A falta desta seria razão suficiente para me reter ali e redundaria
em ’gasosa’ pela certa. Abriu-a e voltou a fechá-la a sem ler.
- Eu também sou engenheiro, sabe? – Acrescentou. - Estou
aqui, mas sou engenheiro. Só que fui enganado por empresas portuguesas. Depois deixei-me
disso. Estou bem melhor aqui. – a sua expressão
transmitia um misto de desprezo pelo
passado modo de vida engenheiro e vasta superioridade pelo presente modo de
vida “engenhoso”.
-OK. – Pareceu-me óbvio que o objectivo ali não era o
diálogo e mantive-me impávido e telegráfico. Enquanto isso o homem media-me demoradamente. Das centenas de pessoas desembarcadas, eu era o último na sala.
- Estou aqui a ver que é a primeira vez que vem a Angola.
- É verdade.
- Aviso. E quem avisa seu amigo é! Tenha muito cuidado. São
todos aldrabões esses aí.
- Ok. Vou ter.
- Ok. Vou ter.
- Mas são as empresas!
- Certo. Obrigado pelo conselho.
- Pronto, vá. Passe lá.
- Pronto, vá. Passe lá.
Lá passei. Sem pagar, nem me
passar.
Na recolha de malas as coisas
correram inesperadamente bem. Normalmente fico sempre para último, descrevendo ovais solitárias
com os olhos, e no fim a mala vem a deitar fumo, com marcas de pneu e moscas orbitantes - que exagero. Mas desta feita, não. Ambas as malas surgiram cedinho e
pristinas. Tinham-me assustado em Lisboa, com a certeza de violações de
cadeados múltiplas por parte de bagageiros sem escrúpulos, mas, aparentemente apanhei o turno escrupuloso.
Enquanto empilhava as malas no carrinho metálico, um funcionário - que de resto não me pareceu desempenhar qualquer função - abeirou-se de mim e segredou: “Amigo, arranje aí qualquer coisinha para a gente, uma gasosa, que eu ajudo ali no controle da mala. Ok? Para não ficar ali no controle, ‘tá a ver? Vá.”
Enquanto empilhava as malas no carrinho metálico, um funcionário - que de resto não me pareceu desempenhar qualquer função - abeirou-se de mim e segredou: “Amigo, arranje aí qualquer coisinha para a gente, uma gasosa, que eu ajudo ali no controle da mala. Ok? Para não ficar ali no controle, ‘tá a ver? Vá.”
Olhei para a saída e ao fundo da
sala vi a máquina de raios-x com uma fila considerável de malas e uma senhora a
discutir com os controladores. Pareceram-me ocupados, por isso resolvi
despachar o empregado-do-mês com um seco, “Não tenho nada.” e apressei-me a
sair porta fora.
“Sucesso!”, sorri eu, enquanto desaguava numa sala de saídas inesperadamente
menor que a do terminal da Rede Expressos de Sete Rios. Ainda tinha de esperar pela boleia uns minutos, mas a salinha apinhada de gente
não convidava a ficar. Por isso saí em direcção ao sol, por curiosidade e absoluta
necessidade de exterior.
Fazia um calor de ananases no forno, e entre pedintes e fura-vidas a multidão que por ali pairava não era a mais acolhedora, mas ninguém me abordou. O patrão também não demorou muito a surgir ao volante de uma 4x4. Corri para a carrinha, encostada um pouco mais à frente da saída principal onde não impedia trânsito, e de imediato surgiram dois polícias de trânsito, que ali estavam inocentemente colocados, a querer multar-nos. Enquanto meti as malas na bagageira e entrei no carro o patrão foi despachado de 20$, por via ‘gasosa’. Bem-vindo a Luanda.
[Num país como a Suíça, era provável que fossemos também parados pela polícia, mas a gasosa estaria fora de questão e a multa aplicada certamente bem superior aos 20$ americanos. Já em Portugal, muito provavelmente o polícia olharia para o lado e não se passaria absolutamente nada. Tenho para mim que este facto devia ser publicitado nas agências de turismo por esse mundo fora, como factor atractivo. Heróis do mar...]
Fazia um calor de ananases no forno, e entre pedintes e fura-vidas a multidão que por ali pairava não era a mais acolhedora, mas ninguém me abordou. O patrão também não demorou muito a surgir ao volante de uma 4x4. Corri para a carrinha, encostada um pouco mais à frente da saída principal onde não impedia trânsito, e de imediato surgiram dois polícias de trânsito, que ali estavam inocentemente colocados, a querer multar-nos. Enquanto meti as malas na bagageira e entrei no carro o patrão foi despachado de 20$, por via ‘gasosa’. Bem-vindo a Luanda.
[Num país como a Suíça, era provável que fossemos também parados pela polícia, mas a gasosa estaria fora de questão e a multa aplicada certamente bem superior aos 20$ americanos. Já em Portugal, muito provavelmente o polícia olharia para o lado e não se passaria absolutamente nada. Tenho para mim que este facto devia ser publicitado nas agências de turismo por esse mundo fora, como factor atractivo. Heróis do mar...]
Enquanto o prof lidava com a lei
local, eu conhecia os outros dois inesperados ocupantes da carrinha. Januário,
um engenheiro jovem angolano vastamente porreiro, que trabalha para nós em
Luanda e Boris (Seria Boris? Bem, era com B.) um engenheiro do ambiente coerentemente
sérvio que o patrão havia conhecido no dia antes num congresso de ambiente.
Tinha vindo a convite, para conhecer as obras da empresa em Luanda, ficar bem
impressionado com as ditas e encomendar projectos para os Balcãs. Ou pelo menos
assim esperava o patrão.
Não tive cá direito a pousar malas
em hotel, nem mariquices que tais. Fomos de imediato em modo mini visita de
estudo ver o aterro municipal.
Perguntei-me quantas pessoas na história da humanidade terão tido tal prioridade ao aterrar em Luanda – ou onde quer que fosse. Um privilégio apenas ao alcance de alguns predestinados, estou certo.
Perguntei-me quantas pessoas na história da humanidade terão tido tal prioridade ao aterrar em Luanda – ou onde quer que fosse. Um privilégio apenas ao alcance de alguns predestinados, estou certo.
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