terça-feira, 27 de maio de 2014

Angola, Dia 1 (Parte 2) - Há desordem no caos

O caminho para o aterro municipal de Luanda - e para todos os aterros que se queiram sensatos, já agora - é feito em sentido contrário ao centro. Este meu percurso inaugural de fuga à baía e aos prédios de escritórios da baixa da cidade, teve o seu quê de extraordinário.

Eram três as paragens planeadas e, apesar de serem apenas 8h da manhã, já levávamos pressa - patrão ao volante, pressa constante. Eu cansado mas espertinado, ainda me acomodava no banco traseiro por entre malas e maletas, em busca de um penduricalho do cinto, e já entrávamos numa via-rápida.
Aqui é de ressalvar, que o termo via-rápida aplicado a esta jovem estrada, arrisca fundadas acusações de publicidade enganosa. As 3 faixas que a compõem (3 oficiais, 5 ou 6 em potência) vêem amiúde a sua capacidade de vazão reduzida à de um conta-gotas, por obra e graça dos vários mercados-cogumelo que vão brotando da berma. Um posterior estrangulamento destes troços mercantilmente afunilados, é ainda proporcionado por cortesia dos candongueiros que ali se acumulam.

[Os candongueiros são basicamente os autocarros de Angola enquanto Angola não arranja autocarros. Ubícuas carrinha azuis e brancas tipo pão-de-forma, que largam e pegam pessoas, em percursos fixos apregoados pela janela, mediante o pagamento da módica quantia de 100 kwanzas (1$US).
Para além do chofer e seu fiel companheiro apregoador, cabem 6 passageiros (6 oficiais, número indeterminado em potência).]

Este abençoado estagnar de trânsito, cria passagem segura para as incontáveis pessoas que têm de atravessar a via-rápida. Noutras zonas, com maior fluidez, a passagem é tão segura como os carrilhões em Mafra, mas as pessoas atravessam na mesma. Intrépidas senhoras de vestes coloridas, muitas com bebés presos por panos às costas, precipitam-se para o meio do trânsito, numa espécie de jogo de ‘frog’ aflitivamente real - sem crocodilos no final da travessia, mas ainda assim.
Ao longo da via, de quando em quando, vi pontes pedonais aéreas montadas, mas talvez por não estarem na direcção dos mercados e serem o caminho mais longo, não vi vivalma que as montasse.

Criam-se então, a partir da grande artéria, as condições ideais para hordes de vendedores ambulantes acorrerem ao asfalto, deambulando por entre os carros pára-arrancados.
Em Luanda há um défice de lojas, no sentido físico do termo ‘loja’ - a resposta natural a essa míngua de terciário é este fenómeno de mercados drive-through em esteróides, espalhados pelas estradas da cidade.
Estes comerciantes de artigos em punho, surgiram-me a princípio apregoando coisas corriqueiras e sensatas, como como bebidas, comida, jornais, etc. Mas pouco depois, as coisas começaram a escalar para fora do cabaz de artigos que normalmente se associa aos típicos vendedores inter-tráfego.
Primeiro, surge-me uma senhora equilibrando um metro de alguidares de plástico coloridos sobre a cabeça, vendendo-os em simultâneo com gilletes, numa mão e um telemóvel-esperto noutra – perguntei-me qual seria a garantia associada àquele arraçado de Samsung. Dois carros à frente, passamos por um indivíduo que exibia na sobrelotada montra corporal, uma mangueira de jardim enorme e verde enrolada no ombro esquerdo, um trio de volantes a servirem de colar tricolor e quatro cabeças de chuveiro metálicas, na mão que lhe restava.
Ainda antes de fechar o primeiro auto-mercado, surge um tipo aos berros, brandindo um par de catanas e um machado, na minha direcção. Concluo logicamente que estou prestes a morrer uma morte horrível e digna de tablóide. No entanto, contrariando as minhas certezas de manchetes de 'machete' no Correio da Manhã do dia seguinte, o tipo sorri para mim e com pouco dente e muita gengiva, grita:

- Machado, catana? ´Tá barato e afiado, chefe.

- Ah, ok. Não. Não, obrigado.” – respondi. “Se o próximo vender uma muda de roupa interior, faz negócio.” – pensei.

Dada esta série de progressão mercantil, tenho para mim que se a estrada continuasse tempo suficiente acabaria por ver alguém com uma girafa bebé ao pescoço, ogivas de urânio enriquecido por herança na mão esquerda, e ovos de estegossauro na outra esquerda. Mesmo antes de começar a malabarar as ogivas e os ovos a quatro mãos e a cantar o 'Strange Days' dos Doors.

Seguimos neste ritmo de velocidade sinusoidal alguns minutos, passando por mais dois daqueles práticos moto-mercados, até que invertemos o sentido e metemos por uma estrada secundária. Terciária, vá - salta logo um nível na escala de estradas e fá-lo com todo o mérito. Fui então informado, que estava prestes a conhecer a verdadeira Luanda. Entrávamos num musseque.

À entrada do boqueirão, por entre um corrupio de gente, acumulava-se uma vintena de táxis. Eu não os identifiquei à partida, tiveram que mos apontar. Pois fila não havia e aqui já não reinavam os uniformizados candongueiros azuis e brancos da via-rápida, mas sim uma miríade de carros, sem marca ou cor características que, aos meus olhos destreinados, eram indistinguíveis dos restantes automóveis civis. Tinham talvez apenas em comum o facto, da carroçaria se encontrar mais batida que massa de folar.
A esta frota 'Mad Max' de quatro-rodas, juntava-se ainda um enxame atordoante de intrépidas motoretas tipo Casal Boss, que contornavam o trânsito em todas as direcções, tendo a seu favor o facto de lograrem acesso a zonas do musseque onde os bojudos quatro-rodas não podiam sequer aspirar chegar.
Aos duas-rodas que oferecem serviço de táxi, os locais chamam de 'kupapatas', termo que significa meter a mão, apalpar - gesto recorrente dos clientes no fim das corridas, quando apalpam as calças em busca de umas kwanzas para pagar.

Naquele dia fazia um sol excepcional, mas só por mero acaso, já que nos encontrávamos em plena da época das chuvas. E por esse facto, a estrada de terra do musseque encontrava-se, ora aqui enlameada, ora acolá toda alagada. No que concerne a eventuais buracos na via: rói-te de inveja, superfície lunar.
As travessas que entravam para o interior do musseque, já não podiam ser consideradas estradas. Eram faixas de lama de superfície aleatória, intercaladas por lagos de profundidade desconhecida. Não eram poças. Eram lagos. Daqueles com ondas e regime de maré, muito seus.

Embora estivesse mais que avisado acerca dos crónicos problemas de criminalidade associados a Luanda, nunca me senti verdadeiramente inseguro, na minha curta estadia. No entanto, ao longo do dia, o Engº Januário fez questão de lembrar que se trancassem as portas da carrinha. Vidros subidos, ar condicionado no ON, para que me lembrasse onde estava. E foi assim, através do vidro do banco traseiro e agraciado por periódicas cabeçadas no tecto da Nissan, que vi passar os musseques de Luanda.

A vista não era desoladora, pelo contrário. Claro que os bairros eram pobres, eram paupérrimos. Mas a atmosfera era vibrante, as pessoas vestiam-se de cores garridas, num caleidoscópio humano pleno de propósito e direcção. Raras ou nenhuma foram as vezes que vi alguém pairar sem rumo naquelas ruas, como imaginava a priori que fosse o caso. De ambos os lados da rua viam-se negócios em lojas de rés-do-chão, barracas de alumínio, ou mesmo em simples mantas no chão.
Todo este colorido, imagino, desaparece à noite neste musseques por alumiar. E se prefiro aqui descrever as coisas positivas e pitorescas, a miséria pura e dura estava lá e não a consigo ignorar. Da mesma forma que não consigo imaginar o quão pior será passar ali, já nem digo viver ali, depois do por-do-sol. Não se passa, mal se vive.

Entretanto, como se poderá adivinhar, metade das gentes eram crianças. Quase todas as mulheres tinham um bebé às costas, infalivelmente seguro por um lenço colorido, atado em torno da cintura. E, aparentemente a partir do momento em que se aguentavam de pé, viam-se gaiatos e gaiatas em bandos, a brincar por todo o lado.
A pirâmide-etária angolana, faz jus ao polígono que o termo encerra. Ao contrário da de Portugal, onde o contorno do gráfico de barras cada vez mais se assemelha ao de um barril - cheio de água, estou em crer, estivesse cheio de vinho e por ventura far-se-iam mais uns putos aqui e além.

Depois das pessoas, comecei inconscientemente a virar a minha atenção para o edificado. A quantidade aparentemente absurda de garagens e lojas de peças automóveis, lubrificantes e derivados, surpreendeu-me. Mas em retrospectiva acredito que só em substituição de amortecedores, houvesse nos buracos e lombas do musseque demanda suficiente para as sustentar a todas – um lobbie malévolo dos amortecedores a travar a adequada pavimentação de estradas terceiro-mundistas ocorreu-me.

Outro sector de retalho bastante popular que pode ajudar a explicar as dezenas de lojas de manutenção automóvel por quilómetro linear, é a venda de gasolina ambulante. Por razões óbvias, não há postos de abastecimento no musseque. Por isso, aqui e além, em banquinhas improvisadas, sentam-se plácidos gasolineiros aguardando solicitações de troca de castrol por kwanzas.
Nestas bancas viam-se pousadas garrafas e garrafinhas de modestas dimensões, que a princípio pensei estarem ali a servir de amostra, mas não. Pedir um litro de gasolina ou meio-litro para abastecer é normal, quando o que pesa a menos na carteira não permite comprar mais de uma assentada - isto numa terra em que o litro de gasolina é mais caro que o da água. E aqui nem estamos a falar de gasolina 'per se'. Cortado e recortado a partir do original das bombas da Sonangol, este gasóile ‘gourmet’ que as garrafinhas abancadas encerram, é óbvia e assumidamente abaixo dos padrões da indústria.
Ora, eu não percebo uma porca de mecânica automóvel - nem de nenhuma outra mecânica, já agora - mas tenho ideia que o uso de líquidos combustíveis deste 'pedigree', a longo prazo terá tendência a desarranjar a tripa ao Ferrari e por conseguinte a encher o bucho das registadoras de todas essas garagens e garagetas. Melhor que satisfazer demanda, só mesmo criá-la.

Ao longo da estrada principal havia negócios de tudo um pouco. Ficaram-me na retina as lojas de mobiliário, com os seus sofás expostos na rua, a meio dos 5 ou 6 metros de passeio de terra - inesperados oásis de conforto forrados a plástico tranparente. As ervanárias, assumidamente alternativas às farmácias de medicina ocidental. E os salões de beleza, onde se entrança, missanga, pinta e estica a indomável e obstinada guedelha das capilarmente inconformadas moças africanas.

No que toca a nomear negócios, os baetas caprichavam - primando invariavelmente pela afiliações clubísticas. Passámos por várias barbearias e não foi com dificuldade que decorei os nomes. A primeira era a “Barbearia Petro”, a outra, mesmo ao lado, “Barbearia 1º de Agosto” - ambas as casas enfeitadas com as cores e símbolos das respectivas agremiações rivais, claro.
Mais adiante começaram a surgir combinações: “Barbearia Petro e Real Madrid”, “Barbearia 1º de Agosto e F.C.Porto”, etc. No final, a fechar com chave de ouro, a “Barbearia Só Benfica”. Se lá voltar a passar, hei-de pedir um corte à "Bonga". Aproveito e proponho um sub-título: A Catedral da Carapinha.

Como nos encontrávamos a bordo de uma todo o terreno capaz de lidar com a estrada picada, os 5 km dali para o aterro demorariam normalmente ‘apenas’ uns 20 minutos. No entanto, como viemos penosamente a perceber mais tarde, há três dias uma camioneta tinha avariado a meio do caminho, bloqueando sentido-e-meio à via.
Apesar de múltiplos camiões e máquinas passarem ali, em 3 dias ninguém achou por bem tirá-la do meio da estrada. E também não ajudava à confusão que os angolanos, ao verem uma fila à sua frente presumissem uma desistência colectiva dos demais colegas de sentido e ultrapassassem toda a gente pela esquerda, em contra-mão, até darem de caras com a camioneta. O resultado foi o (des)esperado: Uma bola de trânsito em crescimento contínuo, nos dois sentidos, em torno da 'facilitadora'. Demorámos 1h30 para fazer 5 km. Quase 1h só naqueles 800m. Se hoje encontrasse o senhor que estava ao balcão da “Farmácia Reviver”, ainda o reconheceria - estive 20 min parado defronte dele. Ajuda que o senhor fosse o farmacêutico e estivesse a fumar um cigarro.
Entretanto, não sei se já referi, mas no meio de todo este trânsito era sábado. A pressa que levávamos de início, chocou de frente com a realidade de Luanda.

Em Portugal amiúde apelida-se o trânsito de caótico, num dia mais entupido. Trânsito caótico é o melhor a que se pode aspirar aqui, até porque o termo ‘caótico’ encerra em si uma noção de movimento. Desordenado, é certo, mas ainda assim movimento. O pior cenário dá-se quando o congestionamento é tal que simplesmente não se anda nem desanda. Esta estagnação confunde e assusta os forasteiros como eu e suga o tempo e a vida a todos os que têm a distinta infelicidade de se verem no meio dele, dia sim dia sim.
Assim sendo, independentemente do termo utilizado, doravante esse tipo de adjectivações não poderá ser empregue em Lisboa na minha presença. É como ter subido aos Himalaias e ouvir uma gajo apelidar a Serra d’ Aire de imponente.

[Por esta altura, já haverá quem estranhe o ênfase dado às idiossincracias do trânsito local. É de esclarecer que para quem vive em Luanda a vida é dominada por este factor. Por exemplo o Engº Januário, que mora fora do centro, queixou-se que perdia 3h todos os dias de manhã para chegar ao emprego. Se por ventura nesse dia o Sr. Presidente fosse a algum lado, o transito era bloqueado pela polícia e passava a demorar perto de 6h. Acrescentou, "Se mais tarde, à saída do emprego, o trânsito estiver muito mau, mais vale jantar por ali e dormir no carro porque entre ir a casa e voltar dormem-se 3 horas na cama e repete-se o dia. Mas já esteve pior."
A cidade de Luanda foi dimensionada para 500 mil pessoas. Depois do êxodo rural maioritáriamente devido à guerra civil, habitam-na 5 milhões. Aqui todos os dias se tenta escoar o Rossio pela Bestega.]

Este suave percurso que tomámos, era o mesmo que os camiões do lixo faziam a caminho do aterro.
Ora, nas universidades e nos congressos de ambiente (como o de onde vinham o patrão e o engº Markovic), apresentam-se vários intrincados estudos computacionais onde, após se equiparem os camiões com aparelhos GPS, se procura optimizar os percursos, tempos de carga e descarga dos resíduos, controlar a distância do camião A para o camião B e do B para o C, etc.
Pensar que todo esse nível de sofisticação e esforço académico são depois aplicados a esta realidade hiper-entrópica, é no mínimo divertido.

O caminho para o aterro foi, de facto, fascinante. Se me disserem que nunca mais o faço, não espernearei.

À chegada ao local fomos recebidos no portão por guardas armados com kalashnikovs, outra estreia para mim. Normalmente o lixo não se guarda com tamanha diligência – nem as diligências do faroeste inspiravam tanta.
O aterro era enorme, servia uns quantos milhões de Luandenses que juntos debitam uma bela tonelagem. Isto apesar do angolano médio lixar apenas uns 25% do volume per capita de um português. Coisa curiosa que quanto mais ‘evoluídos’ somos, mais lixo enterramos e tapamos com terra. Nem vos conto quanto lixa um estado-unidense, que os tipos já têm má publicidade suficiente.

Ao chegarmos ao ponto mais elevado do aterro, num alvéolo em pirâmide já explorado e selado, o engº Sulejmani espantou-se com a ausência de “scavangers” – pessoas a remexer o lixo. O patrão apontou-lhe a mais que óbvia vedação verde em trono do recinto, ao que o engº Matic ripostou: “Ah...”.
Mas tinha razão, “scavangers” ali, só mesmo as gaivotas. Ratos alados, repelentes pombos da orla costeira esvoaçando às centenas, cobrindo todos os centímetros quadrados da estreita faixa de lixo por tapar.
Quem vai pela primeira vez a um aterro espanta-se com a ausência de cheiro, que à partida todos imaginamos que seja insuportável. No entanto, por o lixo ser compactado e coberto com terras, só junto à faixa que está a ser explorada é que somos brindados com a doce fragrância dos resíduos sólidos. Certas zonas do interior dos musseques mais chegadas aos esgotos, podiam usar o cheiro de um aterro bem gerido como ambientador.
Já eu, espantei-me com a paisagem verdejante para lá da vedação, belas colinas por urbanizar a perder de vista, enfeitadas por majestosos embondeiros. Quem já viu um aterro, ainda para mais projectado pelo mesmo indivíduo, viu todos. Quem vê um embondeiro, quer vê-los a todos. E foi o que procurei fazer, assim que tive hipóteses. Mal descemos do alvéolo, abeirei-me de um o mais que pude, enorme, plantado junto à vedação. O tronco tinha no mínimo uns 5 metros de diâmetro, nem faço ideia de que idade teria. Mágico. Se coubesse na mala, tinha-o trazido. Coube na alma, que é anagrama, já não foi mau.

À saída, por razões óbvias decidimos não seguir a estrada que havíamos tomado à vinda. Um pouco à aventura fomos então, pouco a pouco, boca a boca, tentar desembocar na via rápida que nos trouxera do aeroporto.
Pelo meio, uns homens das obras tentaram sacar uma gasosa por via de um bloqueio de estrada, que se encontrava em vias de reparação - perguntei-me porquê esta, em particular. O líder da pandilha, pôs então um bloco de cimento no caminho e avançou inchado e decidido na nossa direcção. No entanto, a simples menção de uma autorização de passagem por parte do director da obra, que não conhecíamos claro, desinsuflou instantaneamente o indivíduo que fez sinal aos restantes para que se afastasse o obstáculo.
Estavam enganados na via a reparar, os senhores, pareceu-me. Pois um mero par de curvas antes, havíamos sido obrigados dobrar o caminho em marcha-a-ré, afugentados por um buraco da largura da estrada e da fundura da mesma, que nos teria deixado de tubo-de-escape a baforar aos céus e para-choques a contemplar a terra-cota.

Duas à direita depois da 'portagem' e estávamos de volta ao almejado alcatrão. Adiante, voltei a ver o homem que vendia as cabeças de chuveiro e a mangueira verde, rumando sem rumo por entre os carros. Sem surpresa não parecia ter vendido nada. Verde-esperança, quando olhei melhor.

Por entre mais umas horas a contemplar o asfalto visitámos mais dois locais, duas ETAR, onde o interesse da visita se prendeu mais com questões de engenharia do ambiente e construção que outra coisa.
É de referir, no entanto, que a maior das duas ETAR, que está a ser construída por um empreiteiro chinês, era uma autêntica aula prática sobre como executar algo mal e porcamente. Mesmo sendo acompanhados e pressionados amiúde pela fiscalização, a escolha sempre que possível caiu para o mais fácil e mais barato – que sai caro, certo, mas não a eles.
A construção chinesa está um pouco por todo lado em Angola e tem associada a si, quase sempre, esta malapata. Em compensação, tem a ‘vantagem’ de não durar muito, pelo que daqui a uns anitos Angola terá certamente a oportunidade de reconstruir muitas destas coisas. Quiçá dessa feita, feitas como devem ser.

Quando nos vimos no fim das nossas voltas, o patrão cumpriu com o prometido e rumámos ao centro. Passava das 15h quando vi pela primeira vez o Atlântico, mas já não o via bem. Porque se a fome apertava a moela dos que não comiam desde manhã, eu - que havia agraciado o estômago pela última vez ao jantar comida-aérea algures sobre espaço-aéreo do Mali - tinha a moela mais espartilhada que uma donzela vitoriana em noite de ópera.

Feitos uns quilómetros e uma ponte, entrámos na ilha de Luanda. Os locais chamam-lhe apenas ilha, deixando o “de Luanda” de fora. E a meu ver bem, já que a realidade de Luanda-cidade e a daquele estreito de terra são tão díspares e afastadas a tantos níveis, que os 4 km que distam bem podiam ser 4 mil.

[Ilha esta, que na realidade é um estreito, pegado ao continente por uma das pontas. Os portugueses que cá chegaram no séc. XVI disseram que o areal tinha “quanto muito uma milha” de largo. Para quem se confunda com conversões métricas, não se apoquente, os nossos avisados antepassados acrescentaram que tinha de largo “em alguns lugares, um tiro de arco somente”.]

Fizemos a ilha de uma ponta à outra, numa estrada nova e impecável, com rotundas catitas, separadores centrais relvados e palmeirinhas-anãs, ladeada por edifícios modernos e belas praias. Na volta, o patrão finalmente decidiu-se pelo um dos estabelecimentos, que a mim me pareciam todos iguais na névoa de fome em que vinha imergido. O feliz contemplado foi o ‘Restaurante-Discoteca, Lookal’. Àquela hora, apenas restaurante.

Não estivesse a entidade patronal em plena operação de polimento das botas do engº Sulejmani, e duvido que nos tivesse levado a manjar ali à lorde. Também não digo que se não fossem os Balcãs comíamos ao balcão, mas certamente não seria cataplana de marisco à beira mar servida, como deveras foi.

Por mais cego de fome que viesse ao entrar ali - logo depois de notar que o estabelecimento tinha como lugradouro o Oceano Atlântico, não pude deixar de reparar que a clientela era composta única e exclusivamente por brancos. E que ‘em compensação’ os empregados eram todos negros - exceptuando uma ‘tia’ loira quarentona plantada à entrada, que tinha pinta de quem antes de emigrar queria muito, muito aparecer na revista Caras.
Mesmo sabendo que aquele era um restaurante detido por um português e tendencialmente frequentado por portugueses - que por sua vez têm tendência para ser brancos - não pude deixar de me sentir algo constrangido com o ambiente vagamente reminiscente de épocas mais coloniais. Logo depois, lembrei-me do contexto em que eu próprio me via em Angola - bem mais explorado, que explorador - e passaram-me rapidamente os constrangimentos.
A chegada das entradas também ajudou: três largos pratos com presunto de porco-preto, salada de polvo e choco-frito. Uma divina trindade petisqueira regada a Cucas, que me devolveu as cores em grande estilo.

Não entrarei em extensos detalhes acerca da cataplana de marisco que comemos de seguida, até porque à hora que escrevo estas palavras, espera-me mais um prato de arroz com atum em óleo para o jantar e não quero deprimir as papilas em ante-mão. Mas fique registado que estava mesmo muito boa.

Por entre alguma conversa anglófona, de modo a incluir o convidado, e muito mastigarmos, o patrão aproveitou um elogio meu ao repasto, para me dar com o não-inesperado aviso, de forma bem lusófona:

 - Isto não é para se habituar, hein? Daqui em diante uns peitos de frango grelhados em casa e arroz, que é muito bom.

Eu troquei um olhar cúmplice com o Januário, que sorria mastigando. “Isso sei eu. Por isso enfardemos que nem reis antes que venha daí o amanhã, pleno de intenções regicidas.” – disse sem falar.

- Claro, chefe. Claro. Obrigado pelo repasto. Vai mais uma Cuca?

Rapámos os tachos, lambemos as beiças consoladas e, impulsionados por uma imprescindível bica, decidimos que tinha chegado a hora de rebolar dali para fora.
Momentos antes, passara pela nossa mesa uma distinta conterrânea, ex-ministra do ambiente, a cumprimentar o patrão. Só depois da senhora abalar é que me disseram quem era, eu não a havia reconhecido através do torpor pós-comezaina - o sol punha-se atrás do Atlântico e eu olhava mais a paisagem que a ela, confesso.
Momentos depois, chegou a dolorosa. Acartando uma considerável dor que o engº Fesja ainda fingiu (mal) ter intenções de suportar - através de um erguer da nalga e um tímido gesto na direcção da carteira, antes de o patrão o parar com indignados não-não-nãos e um decidido aceno magnético na direcção dos empregados.

Estava na hora de seguir para casa. Conduzimos então o par de inconfundíveis engenheiros a um hotel, que dei graças ser ali perto. Pelo caminho, abateu-se sobre mim o absoluto contraste que tinha experimentado num tão curto espaço de tempo. Em apenas algumas horas, estive entre os mais pobres dos pobres e a provar a a rica vida dos mais que ricos.
Nesta cidade, o luxo de quem mexe no i-phone 4 dourado (era sempre dourado) e conduz o Mercedes fumado e blindado, contrasta pornográficamente com o quase-nada de quem nasce e cresce nos buracos que são os musseques, sem esperança de lá sair, nem de tirar de lá quem faz nascer.

Chegado ao Hotel Tropicana, checkinei-me e já não quis jantar. Cataplana a jibóiar, recolhi-me e procurei dormir o sono dos justos.
Teria sido justo ter dormido, parece-me, mas mal preguei olho. A ajudar à festa, entre o duche e o deitar tive a infeliz ideia de aplicar repelente em spray - outra estreia. Descobri que não é fácil adormecer espertinado e a tresandar a dum-dum. Não descobri ainda foi a diferença entre o conteúdo do frasquinho de 12€ de repelente xpto que me impingiram na farmácia em Lisboa e o de um spray de dum-dum.

Pus o despertador para as 3h da madrugada, de modo a acordar a tempo do voo matutino em direcção ao Huambo. Poucas horas de sono depois, ergui-me estafado, mas feliz por o meu destino não ser trabalhar nesta cidade.
Marquem-se-me estas palavras: poderei fazer muitas escalas em Luanda, mas nunca lá hei-de viver. Palavra de Mwangolé.

domingo, 11 de maio de 2014

Angola, Dia 1 (Parte 1)


Como toda a gente que já aterrou em Luanda tão bem sabe, a primeira coisa que se nota ao sair da aeronave é o calor. Calor este, que é demasiado húmido e bruto para sensibilidades europeias qual a minha, que ainda para mais nunca me vi a sul da Ilha de Tavira. 

[Curiosamente, ‘húmido e bruto’, descreve também na perfeição o estado a que sucumbe o cidadão, quando exposto tempo suficiente a um calor desta natureza.]

Depois da abertura das portas, os impactos que eventualmente se sigam ao bafo atmosférico, irão variar largamente consoante a sorte e experiência do passageiro. Este que vos escreve não se pode queixar muito da sorte - especialmente em comparação com os épicos ‘azares’ de outros voos para Angola que me haviam contado, em jeito de história de terror, nos dias antes de partir. Já em termos de experiência  nestas andanças, estou tão rodado como um triângulo. Bastará informar que, apesar de já ter viajado a minha conta, sempre o fiz dentro das fronteiras do espaço Schengen. E que, portanto, até saber que vinha para os ultra-mares nem passaporte este menino tinha.

Apeado do avião, apanhado o mini-BUS e chegado ao terminal, tive então o meu desvirginamento de controle de passaporte. Já vinha avisado que a fila de espera nunca é inferior a uma hora. Mas ao fim de uns três quartos-de-hora ali encarneirado num ziguezague de fitinha e pilaretes, ocorreu-me balir. Contive-me, por receio que a provável falta de sentido de humor das pessoas que trabalham em controlo de vistos se confirmasse, e culminasse em represálias de cariz deportante.

Chegada a minha vez, o encontro imediato com o controlador de vistos foi nem bem nem mal-passado. Embora tenha ficado 5-7 minutos a falar com o omnipotente senhor, consegui passar sem ter de o convidar para um 'cafezinho' – entenda-se que aqui o 'convite' não envolve nem a minha presença, nem qualquer consumo de cafeína. ‘Cafezinho’ é naturalmente um eufemismo para suborno ('gasosa') em forma de nota de 10 ou 20$ dentro do passaporte. Ainda assim, temi pelos meus Andrew Jacksons, quando, ao responder, “Engenheiro” à questão, “O que é que você faz”, o controlador exclamou:

-Xiiiii... Já vem tarde, pá.

-Desculpe?

- Já vem tarde. Temos muitos. Temos muitos engenheiros, já. - Eu não pude deixar de me rir, surpreso. E repetiu o senhor, sem se rir:

– Temos muitos, já. (longa pausa) E agora? Hm? Como é que fazemos agora?...

Arregalei os olhos, procurando transmitir desconhecimento e jovem inocência. Paralelamente, usava de um eloquentíssimo silêncio.

-O que vem fazer aqui?

Dei-lhe a carta de chamada de uma empresa angolana e papagueei a frase que me tinham ensinado em Portugal  - e que já tinha ouvido entretanto, vinda do guiché da direita.

- Prospecção comercial.

Ele não escondeu o enfado ao ver a carta. A falta desta seria razão suficiente para me reter ali e redundaria em ’gasosa’ pela certa. Abriu-a e voltou a fechá-la a sem ler.

- Eu também sou engenheiro, sabe? – Acrescentou. - Estou aqui, mas sou engenheiro. Só que fui enganado por empresas portuguesas. Depois deixei-me disso. Estou bem melhor aqui.  – a sua expressão transmitia  um misto de desprezo pelo passado modo de vida engenheiro e vasta superioridade pelo presente modo de vida “engenhoso”.

-OK. – Pareceu-me óbvio que o objectivo ali não era o diálogo e mantive-me impávido e telegráfico. Enquanto isso o homem media-me demoradamente. Das centenas de pessoas desembarcadas, eu era o último na sala.

- Estou aqui a ver que é a primeira vez que vem a Angola.

- É verdade.

- Aviso. E quem avisa seu amigo é! Tenha muito cuidado. São todos aldrabões esses aí.

- Ok. Vou ter.

- Mas são as empresas!

- Certo. Obrigado pelo conselho.

- Pronto, vá. Passe lá.

Lá passei. Sem pagar, nem me passar.

Na recolha de malas as coisas correram inesperadamente bem. Normalmente fico sempre para último, descrevendo ovais solitárias com os olhos, e no fim a mala vem a deitar fumo, com marcas de pneu e moscas orbitantes - que exagero. Mas desta feita, não. Ambas as malas surgiram cedinho e pristinas. Tinham-me assustado em Lisboa, com a certeza de violações de cadeados múltiplas por parte de bagageiros sem escrúpulos, mas, aparentemente apanhei o turno escrupuloso.

Enquanto empilhava as malas no carrinho metálico, um funcionário - que de resto não me pareceu desempenhar qualquer função - abeirou-se de mim e segredou: “Amigo, arranje aí qualquer coisinha para a gente, uma gasosa, que eu ajudo ali no controle da mala. Ok? Para não ficar ali no controle, ‘tá a ver? Vá.”
Olhei para a saída e ao fundo da sala vi a máquina de raios-x com uma fila considerável de malas e uma senhora a discutir com os controladores. Pareceram-me ocupados, por isso resolvi despachar o empregado-do-mês com um seco, “Não tenho nada.” e apressei-me a sair porta fora.
“Sucesso!”, sorri eu, enquanto desaguava numa sala de saídas inesperadamente menor que a do terminal da Rede Expressos de Sete Rios. Ainda tinha de esperar pela boleia uns minutos, mas a salinha apinhada de gente não convidava a ficar. Por isso saí em direcção ao sol, por curiosidade e absoluta necessidade de exterior.

Fazia um calor de ananases no forno, e entre pedintes e fura-vidas a multidão que por ali pairava não era a mais acolhedora, mas ninguém me abordou. O patrão também não demorou muito a surgir ao volante de uma 4x4. Corri para a carrinha, encostada um pouco mais à frente da saída principal onde não impedia trânsito, e de imediato surgiram dois polícias de trânsito, que ali estavam inocentemente colocados, a querer multar-nos. Enquanto meti as malas na bagageira e entrei no carro o patrão foi despachado de 20$, por via ‘gasosa’. Bem-vindo a Luanda.

[Num país como a Suíça, era provável que fossemos também parados pela polícia, mas a gasosa estaria fora de questão e a multa aplicada certamente bem superior aos 20$ americanos. Já em Portugal, muito provavelmente o polícia olharia para o lado e não se passaria absolutamente nada. Tenho para mim que este facto devia ser publicitado nas agências de turismo por esse mundo fora, como factor atractivo. Heróis do mar...]

Enquanto o prof lidava com a lei local, eu conhecia os outros dois inesperados ocupantes da carrinha. Januário, um engenheiro jovem angolano vastamente porreiro, que trabalha para nós em Luanda e Boris (Seria Boris? Bem, era com B.) um engenheiro do ambiente coerentemente sérvio que o patrão havia conhecido no dia antes num congresso de ambiente. Tinha vindo a convite, para conhecer as obras da empresa em Luanda, ficar bem impressionado com as ditas e encomendar projectos para os Balcãs. Ou pelo menos assim esperava o patrão.

Não tive cá direito a pousar malas em hotel, nem mariquices que tais. Fomos de imediato em modo mini visita de estudo ver o aterro municipal.
Perguntei-me quantas pessoas na história da humanidade terão tido tal prioridade ao aterrar em Luanda – ou onde quer que fosse. Um privilégio apenas ao alcance de alguns predestinados, estou certo.